quarta-feira, 6 de março de 2019


Pauta para o debate sobre 
a Previdência 

É quase consenso entre os economistas que as despesas previdenciárias são a principal causa do déficit das contas públicas.

E segundo diversos estudos respeitáveis, tais gastos tendem a explodir devido a duas questões demográficas:

a) aumentou a sobrevida depois dos 60 anos dos brasileiros;

b) diminuiu a taxa de natalidade, atualmente em 1,6 filhos por mulher, inferior à taxa necessária de reposição da população, segundo os demógrafos, de 2 filhos.

Isso significa que haverá cada vez menos trabalhadores na ativa para financiar os que se aposentarem.

Mesmo que não houvesse déficit presente ou futuro, as despesas previdenciárias têm comprimidos outros gastos fundamentais para a prosperidade e o bem-estar: o investimento público em infraestrutura física e humana.

Atualmente, o governo brasileiro gasta menos de 1% do PIB em infraestrutura, enquanto na China essa despesa pública chega a 10%.

Os gastos previdenciários no Brasil estão em cerca de 13% do PIB, já superiores a países de população envelhecida, como Japão e Alemanha, com gastos de 12,4% do PIB.

Segundo as projeções, mantido o atual quadro, em 2050 o Brasil despenderá 17% do PIB com benefícios.

Sem investimento público e privado, a economia não cresce e não gera riqueza a ser distribuída. Todos empobrecemos.

A grande maioria dos economistas, inclusive aqueles situados à esquerda, não questionam a necessidade da reforma da Previdência.

Para quase todos eles, o grande debate é como fazer a reforma e como distribuir os custos previdenciários de modo socialmente justo. Ou seja, quem ganha mais, deve pagar mais.

O tema é complexo e exige uma discussão serena. Os meios de comunicação têm uma grande responsabilidade no debate público. É seu dever apresentar à sua audiência e aos seus leitores as diversas opiniões e proposições em torno da reforma.

Para contribuir com esse debate, peço que meus amigos discutamos a seguinte pauta:

1 - Sistema de Previdência:
a) repartição; b) capitalização; c) misto.
2 - Aposentadorias do setor público;
3 - Aposentadorias dos militares;
4 - Aposentadorias rurais;
5 - Aposentadorias urbanas;
6 - O BPC/ Loas e Bolsa-Família.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


Os militares 
e a política

Na foto ao lado, de 1998, autografo com prazer um exemplar do livro de charges “Pittadas de Maluf” para Salomão Malina, herói da FEB durante a II Guerra Mundial.

Malina combateu como oficial na Itália e ajudou a derrotar o fascismo de Benito Mussolini. Foi condecorado com a Cruz de Combate de Primeira Classe, a maior condecoração de guerra do Exército Brasileiro, por atos de bravura.

Filho de imigrantes poloneses e ainda muito jovem ligado ao PCB, foi convocado pelo Exército e por sua dupla condição de judeu e comunista se sentiu na obrigação de ir para a guerra.

De volta ao Brasil, pouco tempo depois foi para a reserva e se dedicou à militância política. Com a cassação do PCB em 1947 e diante da repressão que se abateu sobre seus militantes, Malina viveu parte de sua vida na clandestinidade.

Foi um dos encarregados do Comitê Central para o setor militar, pelo qual o partido se organizou em compartimentos, de soldados e sargentos até generais comunistas.

Em seu livro de memórias (1), Malina lembra que a mais exitosa luta do setor militar do PCB foi a campanha do Petróleo é Nosso e que resultou na criação da Petrobras em 1954. Um dos maiores líderes da campanha foi o general Leônidas Cardoso, pai do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, à época ambos vinculados ao partido.

Depois do golpe de Estado de 1964, Malina continuou o seu trabalho no setor militar na mais estrita clandestinidade. Morreu em 2002 aos 80 anos de idade sem revelar o nome de qualquer oficial das Forças Armadas que tivesse tido contato com o PCB.

Malina foi o último secretário-geral do Partidão antes da mudança de nome para PPS em 1992, partido ao qual continuou filiado.

Escrevo este comentário ao sentir em certos setores políticos preconceitos em relação ao militares, na falsa crença de que há uma posição política única entre eles e de que todos seriam reacionários de direita.

Ora, assim como qualquer cidadão, os militares se dividem entre as diversas correntes de opinião política existentes na sociedade. E, quando na ativa, assim como membros de outras carreiras de Estado, como diplomatas, magistrados e promotores, não devem exercer atividade partidária pública. Uma vez na reserva, estão livres para exercer qualquer função pública.

É importante não confundir as Forças Armadas, instituição, com os militares que fazem parte do governo Bolsonaro. Nem todos os militares, da ativa ou da reserva, no governo ou fora dele, são bolsonaristas.

E os que fazem parte da atual administração federal têm demonstrado não ser o setor mais atrasado do governo. Eles têm agido, grosso modo, com lucidez e moderação, como no caso da presente crise da Venezuela, contrários à intervenção militar no país vizinho, como quer a extrema-direita bolsonarista representada pelo chanceler Ernesto Araújo.

Com sua visão estratégica de longo prazo, esses militares podem ser a espinha dorsal do governo de Bolsonaro, sem base parlamentar definida e cujo partido do presidente, o PSL, é uma geleia que não fica de pé. Eles podem salvar o governo e o país de uma grave crise política-institucional, cuja consequência seria jogar o Brasil em mais outra grave crise econômica e social.

--> O importante é que, como qualquer cidadão, todos os militares permanecem no estrito cumprimento da Constituição democrática de 1988. Assim, o Brasil sairá fortalecido da crise e em boas condições de dialogar com outras Nações, condizente com sua posição de oitava economia do mundo.

NOTA

(1) O Último Secretário – A luta de Salomão Malina. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira. 2002

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Eleição da mesa diretora da Câmara

O PT, maior partido de oposição, com 55 deputados, não conseguiu unir e liderar uma frente ampla dos partidos democráticos para a eleição da mesa diretora da Câmara dos Deputados.

O partido rompeu o diálogo com o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), cuja eleição à presidência da Câmara apoiou em 2016.

2016

Em 2016, após a prisão do então presidente da casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), nova eleição foi realizada e Maia foi eleito para um mandato tampão com apoio de um amplo espectro de partidos, indo do PT e PCdoB, passando pelo PSB, PDT, PPS, Rede e chegando ao PSDB e PMDB.

Maia derrotou Rogério Rosso (PSD-DF), o candidato apoiado pelo Centrão, bloco conservador e fisiológico.

2017

Em fevereiro de 2017, Maia foi reeleito e derrotou Jovair Arantes (PTB-GO), também candidato apoiado pelo Centrão. Dessa vez, o PT apoiou André Figueiredo (PDT-CE).

2019

Os petistas romperam com Maia depois que o deputado conseguiu o apoio do PSL, o partido do presidente Jair Bolsonaro.

O PT tentou articular um bloco com PP, MDB e PTB e lançar Arthur Lira (PP-AL), mas a articulação fracassou.

Aliados tradicionais como PCdoB e PDT decidiram apoiar Maia e o PSB lançou candidato próprio, João Henrique Caldas (PSB-AL).

Outros partidos da centro-esquerda e do centro, como PPS, PV e PSDB, declararam apoio a Maia.

Porém, por fim, Lira desistiu depois que o seu partido resolveu apoiar Maia.

Vale lembrar que PP, MDB e PTB apoiaram Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial. Seria pouco provável que o deputado do PP representasse um avanço político na comparação com o candidato do DEM.

Ao final, o PT fechou um bloco com PSB, PSOL e Rede na tentativa de sair do isolamento e obter cargos na mesa diretora.

2015

Na eleição de 2015, o PT sofreu uma amarga derrota ao lançar o nome do deputado Arlindo Chinaglia, que teve o apoio da presidente Dilma Rousseff, do PDT e do PCdoB, ficando em 2º lugar, com 136 votos.

Já os demais partidos governistas, capitaneados pelo PMDB, foram vitoriosos com o deputado Eduardo Cunha tendo o apoio do PP, PTB, PSD, PR, PRB e do oposicionista DEM. Cunha obteve 267 dos votos.

A oposição de centro-esquerda lançou o nome do deputado Júlio Delgado, do PSB, apoiado pelo PPS, PV, Rede e pelo centrista PSDB. Delgado ficou em terceiro com 100 votos.

A pequena oposição de esquerda, representada pelo deputado Chico Alencar, do PSOL, obteve 8 votos.

Hoje

As eleições para as mesas diretoras da Câmara e do Senado podem representar um importante contrapeso do Congresso a qualquer tentação autoritária do Executivo capitaneado por Bolsonaro. Acompanhemos os resultados.

Cláudio de Oliveira, jornalista e chargista do jornal Agora São Paulo.

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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019


PT, esquerda democrática ou esquerda autoritária?

O apoio do PT ao regime da Venezuela tem suscitado o debate sobre que tipo de esquerda é o partido: democrática ou autoritária?

Qual a diferença? 

A primeira age dentro das regras da democracia representativa. Respeita o Estado de Direito e atua para fortalecer e aperfeiçoar as suas instituições. Para ela, a democracia é um fim em si mesmo, um valor universal.

Já a segunda vê a democracia como formalidade, mais importando a classe social que domina o poder. Para ela, a democracia representativa é uma forma “liberal-burguesa”.

Parte dessa esquerda considera a “democracia burguesa” um entrave à “democracia popular”, para ela, a verdadeira democracia. Não acreditam nas instituições democráticas, que seriam apenas instrumentos de dominação de classe.

Velha discussão

Entre as esquerdas, essa discussão é antiga. Logo após a Revolução Russa de 1917, o seu líder Vladimir Lenin sustentou uma dura polêmica contra Karl Kautsky, um dos mais importantes teóricos marxistas do início do século XX.

Lenin fez a defesa da implantação de um socialismo autoritário na Rússia. Kautsky criticou a falta de democracia do modelo soviético, que, segundo ele, levaria a um Estado policial e repressor permanente.

As ideias de Lenin deram base ao movimento comunista, enquanto o pensamento de Karl Kautsky derivou na social-democracia.

O movimento comunista exerceu o poder de forma autoritária, especialmente na Europa oriental e na Ásia. Enquanto a social-democracia o exerceu de forma democrática, particularmente na Europa ocidental.

Mas, dentro do movimento comunista desenvolveu-se a corrente eurocomunista, inspirada no italiano Antônio Gramsci, democrática e que mais tarde se compôs majoritariamente com a social-democracia.

E o PT?

O partido surgiu em 1980 se propondo uma nova esquerda, nem comunista tradicional nem social-democrática clássica.

O PT combateu tanto o PCB, a tradicional agremiação comunista do Brasil surgida em 1922, quanto o PDT, o partido brasileiro filiado à Internacional Socialista. E também se opôs ao PSDB, um partido que reunia socialdemocratas de terceira via e social-liberais.

Curiosamente, dentro do PT sempre houve social-democratas, socialistas democráticos e numerosas alas comunistas. E por possuir muitas correntes heterogêneas, o partido nunca conseguiu se definir claramente.

Formação leninista

Mas, prevaleceram na sua cúpula líderes que se formaram nas organizações de extrema-esquerda das décadas de 196 e 1970. Todas de pensamento leninista e suas variantes como o maoísmo, guevarismo, trotskismo e até o stalinismo.

Talvez isso explique o fato do partido ter privilegiado sempre a “democracia de base” em detrimento da democracia representativa. Os seus líderes sempre colocaram em primeiro plano a “luta de classe” e “a luta anti-imperialista”.

Por subestimar a importância da institucionalidade democrática, eles não apoiaram o MDB contra a ditadura e foram ásperos críticos do PCB por este valorizar a luta institucional e a defesa do Estado de Direito, acusando-o de “legalismo” e de “conciliação de classe”.

A ligação entre movimentos sociais e o plano institucional

Essa subestimação levou o PT a não apoiar a candidatura de Tancredo Neves em 1985 para por fim o ciclo autoritária de 1964, e também a votar contrariamente à atual Constituição, texto que lançou as bases institucionais do nosso Estado de Bem-estar Social.

A visão de privilegiar a “luta de classe” e “a luta anti-imperialista” talvez explique as alianças internacionais do PT, não só com autoritários de esquerda, como também com figuras autoritárias como Vladimir Putin, presidente da Rússia, e Mahmoud Ahmadinejad, o ex-primeiro-ministro fundamentalista do Irã, que se opunha aos Estados Unidos.

Por exemplo, ao sobrepor o “anti-imperialismo” a uma concepção democrática, ao meu ver, os governos petistas alimentaram preconceitos e subestimaram o potencial progressista da administração de Barack Obama, com o qual deveriam ter estreitados relações.

Os governos de Lula e Dilma tiveram uma atitude fria, e às vezes hostil, com a administração do democrata, que reatou as relações diplomáticas com Cuba e no plano internacional apostou na distensão, no multilateralismo e administrou positivamente a crise econômica global de 2007.

Corrosão da autoridade política do PT

Ao hipotecar apoio a regimes autoritários, a cúpula petista sinaliza que permanece a dar pouca importância à democracia política como determinante para a inclusão dos setores populares nos processos decisórios, bem como para o avanço de pautas progressistas fundamentais para a comunidade internacional.

E mais: continua a perder autoridade política para liderar os setores democráticos do Brasil na oposição ao governo Bolsonaro, sejam aqueles da centro-esquerda como PSB, PDT, PPS, Rede, PV, sejam setores centristas democráticos como o PSDB, de quem o PT buscou apoio no segundo turno da última eleição presidencial.

A ambiguidade do PT em relação à democracia – para dizer o mínimo de uma agremiação que corrompeu partidos e parte do Congresso, desvalorizou o Judiciário e o Ministério Público – pode levá-lo a um isolamento ainda maior do eleitorado democrático dos grandes centros urbanos.

Uma esquerda democrática deve ser muito clara em relação a princípios como respeito à maioria, à alternância de poder, ao pluripartidarismo, à independência do Congresso, do Judiciário e do Ministério Público, à autonomia da sociedade civil, à liberdade de expressão e de organização. Princípios violados na Venezuela.