domingo, 7 de outubro de 2018


Três Luiz

Dedicados aos meus filhos Luís, Lorena (in memorian) e Laura

1 - Luiz Carlos Prestes

Luiz Carlos Prestes foi o principal líder da esquerda brasileira até o surgimento de outro Luiz, o Luiz Inácio Lula da Silva.

Prestes tornou-se figura pública na década de 1920, quando comandou uma marcha pelo Brasil de jovens oficiais do Exército que se insurgiram contra o autoritarismo da Velha República.

Exilado em Moscou na década de 1930, Prestes se tornou membro do PCB, então o maior partido da esquerda brasileira.

O PCB, juntamente com o PSB e personalidades democráticas, fundou em 1934
a Aliança Nacional Libertadora, com o objetivo de evitar a ascensão do fascismo no Brasil.

Prestes e o PCB cometeram um grave erro. Tentaram combater o fascismo no mesmo terreno do fascismo. Ignoraram seus aliados que defendiam a luta democrática dentro das regras da Constituição de 1934.

Em 1935, o PCB quis derrubar o presidente Getúlio Vargas pelas armas e foi facilmente derrotado. Deu o pretexto para a implantação de uma ditadura em 1937.

Àquela altura, o PCB era adepto do ditador soviético Josef Stálin. Achava que o principal não era a democracia, mas implantar um regime que representasse os interesses dos trabalhadores.

2 - Luiz Ignacio Maranhão Filho

Luiz Maranhão também foi dirigente do antigo PCB.

Deputado estadual no Rio Grande do Norte em 1958, começou sua militância muito jovem, ao lado de seu irmão Djalma, prefeito de Natal de 1956 a 1964.

Os dois irmãos participaram em 1939, juntamente com jornalistas liberais, da fundação do Diário de Natal. Com o jornal, os intelectuais da cidade queriam contribuir na luta contra a Alemanha nazista.

Djalma foi expulso do PCB em 1945. Ele era crítico do “aventureirismo” do partido, inclusive do levante armado de 1935.

Os dois irmãos também foram contrários à radicalização do pré-64. Veio o golpe, Djalma foi deposto da Prefeitura, preso e exilado no Uruguai, onde morreu em 1971. Luiz Maranhão fugiu clandestino para o Rio de Janeiro.

E aqui dois Luiz se encontraram. Luiz Carlos Prestes e Luiz Maranhão refutaram a luta armada e defenderam a resistência democrática ao regime autoritário.

Prestes foi para o exílio na URSS e Luiz Maranhão participou, em nome do PCB, dos encontros de cúpula com remanescentes do PSD, PTB, PSB, PDC e UDN para a fundação, em 1966, do MDB, uma frente ampla pela volta da democracia ao Brasil.

Luiz Maranhão foi preso em 1974 em São Paulo, levado para o DOPS e morto sob tortura. Sua esposa, Odete Maranhão, uma devotada católica, lutou o resto da vida para encontrar o corpo do seu marido e dar-lhe uma sepultura digna, como mandam os preceitos cristãos. Não conseguiu.

3 - Luiz Inácio Lula da Silva

E agora as histórias de Luiz Carlos Prestes e Luiz Maranhão se encontram com a de Luiz Inácio Lula da Silva.

Enquanto os grupos de extrema-esquerda organizavam a guerrilha, o PCB se dedicou a organizar o MDB e a atuar nas entidades da sociedade civil em prol da redemocratização.

Foi assim que um operário militante do PCB, de nome Francisco da Silva, mais conhecido como Frei Chico, convidou o seu irmão para atuar com ele no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

O irmão do Frei Chico, Luiz Inácio da Silva, pouco tempo depois se tornou no maior líder sindical do país e personalidade conhecida mundialmente por ter desafiado a ditadura com uma greve de operários.

Mas a partir de então, Luiz Inácio Lula da Silva passou a não mais seguir as orientações do seu irmão comunista.

Enquanto o PCB defendia a união de todos as correntes democráticas no MDB até a derrota da ditadura, Lula participou da fundação de um novo partido em 1980, o PT, e saiu candidato a governador de São Paulo em 1982 com o lema “vote 3, o resto é burguês”.

Já o PCB apoiou a eleição do democrata-cristão Franco Montoro, um dos governadores que foram decisivos na organização da campanha das Diretas-Já em 1983/1984.

O chamado “Partidão” também defendeu a candidatura do centrista Tancredo Neves para por fim ao regime autoritário em 1985. Juntou-se a Ulysses Guimarães para aprovar a Constituição de 1988.

O partido deixou de existir em 1992, quando se transformou no atual PPS. Uma ala minoritária fundou o novo PCB, um pequeno partido sem representação no Congresso.

Luiz Inácio Lula da Silva e o seu partido chegaram ao poder em 2002. Num primeiro momento, conseguiram desenvolver a economia e tirar milhões da miséria.

Mas não o fizeram de forma sustentável. Em 2011 o país entrou em declínio até chegar a uma profunda recessão, jogando milhões no desemprego.

Seus principais aliados foram partidos de centro-direita (PMDB, PSD), de direita (PP de Maluf) e fisiológicos, em detrimento das agremiações de centro (PSDB) e da centro-esquerda (PPS, PSB, PDT, PV, Rede).

E aqui estamos. Irei às urnas desejoso de honrar a memória de Luiz Maranhão, professor dos meus pais no Atheneu Norte-rio-grandense, eterno defensor do diálogo de todos os democratas pelo bem do Brasil.

Cláudio de Oliveira, 7 de outubro de 2018

sábado, 29 de setembro de 2018


-->
5- Marina é comunista?

Marina foi eleita vereadora em 1988, deputada estadual em 1990 e senadora em 1994, sempre pelo PT.

Nos anos 1980, ela havia ingressado no Partido Revolucionário Comunista, que se abrigaria no PT. O PRC se dissolveu em 1989, dando origem a duas diferentes petistas: Tendência Marxista e Nova Esquerda.

Socialdemocracia?

A corrente Nova Esquerda abandonou a ortodoxia comunista e se transformou na Democracia Radical, a tendência mais moderada do PT, da qual Marina fez parte e era liderada pelo então deputado José Genoino.

A Democracia Radical aderiu as ideias do socialismo democrático, o que a aproximava da socialdemocracia e de partidos como o PPS, o PSB, o PDT e o PSDB.

Defensores da democracia como valor universal, Genoíno e Marina passaram a  críticos das experiências socialistas autoritárias, inclusive do regime cubano.

Aliança com a centro-esquerda

Assim como Genoino, Marina defendeu alianças com outros partidos da centro-esquerda, inclusive com aqueles mais ao centro, caso do PSDB.

No Acre, o grupo político de Marina praticou uma política moderada e de aliança com os partidos democráticos reformistas.

Em 1994, Tião Viana foi eleito governador do Acre pelo PT em aliança com o PSDB e apoio do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Marina deixou o PT em 2009 e foi para o PV para concorrer à Presidência em 2010. Concorreu pelo PSB em 2014 e agora disputa pela Rede Sustentabilidade.

Ela tem como assessores economistas próximos de um social-liberalismo como Eduardo Giannetti da Fonseca e André Lara Resende, este último um dos formuladores do Plano Real.

A exemplo do que ocorre com muitos ambientalistas no Brasil e no mundo, ao lado de uma pauta ambiental, Marina e a Rede defendem um programa geral de tendência socialdemocrata.

Diálogo com o centro

Marina tem sido coerente com suas posições do tempo em que foi da corrente petista Democracia Radical.

Ainda como senadora do PT, Marina defendeu um diálogo com o PSDB para que o governo Lula não ficasse refém dos partidos fisiológicos e mais conservadores no Congresso. (1)

Com o estouro do mensalão, Lula e a ala de José Dirceu haviam preferido se aliar ao PMDB de Sarney e Temer.


Na eleição de 2014, Marina honrou o acordo de apoio mútuo no segundo turno feito entre o PSB de Eduardo Campos e o PSDB de Aécio Neves.

Mas Marina tem dificuldades de por em prática o diálogo com o centro.

Quando disputava a Presidência em 2014, ela não se engajou na campanha da coligação PSDB-PSB, vencedora no 1º turno da eleição para o governo de SP com a chapa Alckmin-Márcio França.

O principal adversário da chapa PSDB-PSB era a coligação conservadora liderada por Paulo Skaf, do PMDB em aliança com o PP de Maluf e o PSD de Kassab. (2)

A grande dificuldade de Marina no atualpleito é a sua falta de estrutura partidária. Isolada de alianças amplas, ela foi ultrapassada por outras candidaturas de perfil de centro-esquerda.

Marina não conseguiu transformar seu prestígio em estrutura partidária. Sua Rede Sustentabilidade e partidos próximos como PV e PPS terão dificuldades com o aumento da cláusula de barreira.

Palavra final

Quem for eleito presidente, dificilmente fará uma política socialdemocrata e desenvolvimentista com um déficit orçamentário na casa dos R$ 130 bilhões. Políticas sociais e ampliação da infraestrutura requerem investimento público.
A principal despesa do governo, mais de 60%, é com benefícios previdenciários, deixando o investimento público nos patamares históricos inferiores a 2% do PIB. Assim, avalio que uma reforma da Previdência é de fato incontornável.

ANTERIORES

1 - BOLSONARO É NAZISTA?
2 – HADDAD É COMUNISTA?
3- CIRO É ESQUERDISTA?

NOTAS

(1) De feliz memória

 https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz3006200806.htm

Renda básica na política

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0902200906.htm

(2) A chapa conservadora PMDB-PP-PSD foi defendida por Dilma e Lula:
A PMDB Dilma diz ter dois candidatos para derrotar tucanos em SP; ouça


-->
4- Alckmin é direitista?

Geraldo Alckmin  foi eleito vereador em 1972 e prefeito de Pindamonhangaba em 1976 pelo antigo MDB (1), o partido que reunia diferentes correntes democráticas em oposição ao regime ditatorial de 1964. Pelo seu sucessor, o PMDB, elegeu-se deputado estadual em 1982 e constituinte em 1986.

Em 1988, Alckmin  participou da fundação do PSDB, partido formado por socialdemocratas como Fernando Henrique Cardoso, democratas-cristãos como Franco Montoro e liberal-democratas como Afonso Arinos.

Socialdemocracia?

Líderes do PSDB, como FHC e Mário Covas, tiveram papel relevante na Constituinte de 1987, que lançou as bases institucionais do Estado de Direito e de Bem-estar social do Brasil.

Além das liberdades democráticas, a nova Constituição instituiu direitos sociais e estabeleceu a Educação e a Saúde públicas como direito dos cidadãos.

Ela deu poderes de investigação ao Ministério Público, tornando possível operações como a Lava Jato. E também estabeleceu a figura do Projeto de Lei de Iniciativa Popular, pelo qual foi criada a Lei da Ficha Limpa.

O PT votou contra a Carta de 1988 em um erro de avaliação ao considerá-la reacionária.

Social-liberalismo?

No poder, FHC fez uma mescla de liberalismo com socialdemocracia de terceira via. (2) O professor da USP Brasílio Salum Jr. faz uma análise nesses termos sobre os governos de FHC. (3)

Luiz Werneck Vianna considera o PSDB como originalmente de tendência  socialdemocrata. Leandro Konder também coloca os tucanos no campo da socialdemocracia em texto de 2003. (4)

Ao analisar os trabalhos da Constituinte, Salum coloca o PSDB próximo do centro político. (5)

É aí que talvez esteja Alckmin, que estaria mais para um social-liberalismo de Franco Montoro do que para uma socialdemocracia de FHC.

Conservadorismo ou social-reformismo?

A atual coligação de Alckmin com os partidos do Centrão tirou essas agremiações de uma possível aliança com Bolsonaro, o que teria fortalecido ainda mais o candidato da direita autoritária.

Por outro lado, a força do Centrão no Congresso daria uma forte componente conservador e fisiológico a um possível governo Alckmin.

É pouco provável que partidos como PSDB, PPS e possíveis aliados como PSB, PDT e PV consigam  aumentar significativamente suas bancadas para servir de contraponto ao Centrão.

Direita x centro

De todo modo, Alckmin é reconhecido como democrata e bom articulador, qualidade necessária ao enfrentamento da crise.

Quanto ao republicanismo do PSDB, sua imagem foi tisnada pelas denúncias de corrupção contra tucanos como Aécio Neves.

Também a gestão Alckmin em SP, apesar de responsável com as contas públicas e de registrar avanços, teve dificuldades em algumas áreas como o ensino médio (6) e sofreu denúncias de irregularidades.

Porém, o grande problema do PSDB nesta campanha está no fato de setores à direita não se sentirem representadas pelo centrismo de Alckmin e dos tucanos.

Candidaturas como as de João Amoêdo e de Henrique Meirelles contribuíram para fracionar o bloco anti-petista, como também Bolsonaro conseguiu atrair o eleitorado conservador que desde 1994 votava no PSDB.

A radicalização política do país ao estabelecer polarizações parece não favorecer candidaturas ao centro. Não à toa tem sido estimulada principalmente pela campanha bolsonarista.

ANTERIORES:

1 - BOLSONARO É NAZISTA?

2 – HADDAD É COMUNISTA?
3- CIRO É ESQUERDISTA?
-->



PRÓXIMO TEXTO:

5- MARINA É COMUNISTA?


NOTAS

(1) O MDB reuniu em 1966 os remanescentes do PSD, PTB, PDC, PSB e dissidentes da UDN, partidos extintos em 1965, além do ilegal PCB. Nos anos 1990, com a saída de diversas alas para fundar outros partidos e com a morte de Ulysses Guimarães, o MDB passou a ser dominado por conservadores como o José Sarney.
(2) Socialdemocracia de terceira via é um caminho entre o liberalismo e a socialdemocracia clássica, segundo o sociólogo Anthony Giddens, principal formulador do Novo Trabalhismo adotado pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
(3) O Brasil sob Cardoso: neoliberalismo e desenvolvimentismo
(4) Os paulistas PT e PSDB. Luiz Werneck Vianna:
As Ideias Socialistas no Brasil. Leandro Konder